Alzheimer Precoce: Quando a memória falha antes do tempo

O Alzheimer não é uma doença exclusiva da terceira idade. Embora seja mais frequente depois dos 65 anos ,também pode surgir em pessoas muito mais jovens, incluindo adultos na casa dos 30 e 40 anos. Quando os sintomas começam antes dos 65 anos, falamos de doença de Alzheimer de início precoce.

É uma realidade bem difícil, porque pode surgir numa fase da vida em que a pessoa está a trabalhar, a criar os filhos, a começar a construir a sua vida e a fazer planos para o futuro.

Quais são os primeiros sintomas?

  • Alterações da memória. Esquecer conversas recentes repetir perguntas, perder objetos com frequência ou não conseguir recordar acontecimentos importantes.
  • Dificuldades de raciocínio e organização. Ter dificuldade em gerir dinheiro, seguir instruções, organizar tarefas ou resolver problemas que antes eram simples.
  • Alterações na linguagem e orientação. Ter dificuldade em encontrar palavras, acompanhar conversas, reconhecer percursos familiares ou orientar-se em locais conhecidos.
  • Mudanças emocionais e comportamentais. Apatia, irritabilidade, ansiedade, alterações de personalidade ou dificuldade em lidar com situações habituais.

Porque acontece o Alzheimer precoce?

A doença de Alzheimer está associada a alterações progressivas no cérebro, incluindo a acumulação e proteínas anormais, como a beta-amiloide, que prejudicam o funcionamento e a sobrevivência dos neurónios.

As causas variam de pessoa para pessoa:

Genética, história familiar (ter familiares com Alzheimer precoce pode aumentar o risco).

Fatores de risco: a saúde cardiovascular, determinadas condições médicas e fatores relacionados com o estilo de vida podem contribuir para o risco de desenvolver demência. Mas, não explicam isoladamente a maioria dos casos precoces.

Porque parece haver tantos casos de Alzheimer precoce?

O aumento da atenção e dos diagnósticos não prova, por si só, que a doença esteja a surgir cada vez mais cedo.

Existem várias razões para a maior visibilidade deste problema:

  • Maior capacidade e diagnóstico. Os exames neurológicos e os biomarcadores permitem investigar casos que antes poderiam permanecer sem explicação.
  • Mais sensibilização. Famílias e profissionais reconhecem melhor os sinais de demência em pessoas jovens.
  • Diagnósticos tardios. Os primeiros sintomas podem ser atribuídos ao stress, esgotamento profissional, à depressão ou à falta de sono, atrasando a identificação da doença.

Embora existam fatores de risco associados á demência, não há evidência suficiente para afirmar que o ritmo de vida atual, o stress ou o uso de tecnologias sejam, por si só, responsáveis por um aumento do Alzheimer precoce.

Não devemos esperar que uma pessoa envelheça para levar a sério as suas dificuldades cognitivas.

Reconhecer os sinais, procurar avaliação médica e garantir apoio à pessoa e aos seus cuidadores são passos fundamentais.

Como podemos prevenir o Alzheimer precoce?

  1. Praticar exercício físico.
  2. Ter uma alimentação equilibrada
  3. Dormir bem
  4. Estimular a mente (ler, aprender palavras cruzadas)
  5. Manter vida sociável (conversar, conviver, rir, evitar o isolamento social)
  6. Controlar a tensão arterial, colesterol e diabetes
  7. Cuidar da saúde mental
  8. Não fumar e evitar o consumo excessivo de álcool

 

 

 

 

Confabulação nas demências. A distinção entre mentira voluntária e involuntária

Você acabou de dar o almoço ao seu familiar com demência. Você lava a loiça, senta-o no sofá, e pergunta: “Então, gostou do almoço?” E, o seu familiar nem hesita. Pergunta logo: “Almoço? Que almoço? Eu não comi nada!”

Rapidamente, uma simples pergunta de rotina, torna-se num ambiente de guerra e um numa concorrência, de quem afinal tem razão.

E logo, o doente é rotulado como mentiroso e manhoso. Talvez porque quer brigas, confusões ou que queria repetir mais um prato de comer. Mas até que ponto isto será verdade? Será que uma pessoa com demência tem capacidade para mentir e para provocar brigas?

Existe uma palavra um bocado “cara”: Confabulação. Mas afinal o que significa?

A pessoa com Alzheimer ou outro tipo de demência, pode dizer algo falso, mas isso não significa necessariamente que esteja a tentar enganar alguém.

A confabulação acontece quando a pessoa apresenta uma informação que não corresponde á realidade, sem intenção consciente de mentir.

O cérebro tem dificuldade em recordar corretamente, organizar acontecimentos no tempo e distinguir uma memória verdadeira de uma informação que foi construída ou preenchida.

O exemplo do cuidador perguntar á pessoa em questão se já almoçou e ela responder que não, que afinal já tinha almoçado, pode parecer uma mentira deliberada. Porém, dependendo do estado cognitivo da pessoa, ela pode acreditar genuinamente que nem almoçou.

Não está necessariamente a pensar: “Vou dizer isto para enganar o meu filho”. O cérebro simplesmente produziu uma resposta que, para ela naquele momento, parece verdadeira.

Uma das situações que mais confunde e magoa as famílias de uma pessoa com demência é ouvir coisas que não correspondem à realidade.

“Ela mente muito”

“Diz que fez uma coisa que nunca fez”

“Diz que não lhe dei  comer”

“Está a fazer isto de propósito”

Antes de interpretar estes comportamentos como mentira, é importante compreender a confabulação.

A confabulação ocorre quando a pessoa apresenta uma informação incorreta sem ter, necessariamente, intenção de enganar. Nas demências, as alterações da memória, da orientação temporal e da capacidade de organizar e verificar as próprias recordações podem fazer com que o cérebro preencha as lacunas com informações incorretas.

A pessoa pode afirmar que já jantou quando nem comeu. Pode dizer que falou com alguém quando essa conversa nunca aconteceu. Pode contar um acontecimento de há muitos anos como se tivesse acontecido ontem.

Par quem está de fora, parece uma mentira. Mas, existe uma diferença fundamental: na mentira existe intenção de enganar. Na confabulação, a pessoa pode acreditar naquilo que está a dizer. E como se o cérebro tivesse perdido algumas peças de um puzzle e tentasse completar a imagem com aquilo que consegue encontrar. O resultado pode não corresponder à realidade, mas para a pessoa pode parecer perfeitamente coerente naquele momento.

Então, uma pessoa com demência consegue mentir?

A resposta não é simplesmente “não”.

Uma pessoa com demência pode continuar a ter capacidade para mentir, sobretudo nas fases iniciais da doença porque a intenção, a personalidade e algumas capacidades sociais podem permanecer preservadas durante algum tempo.

Por exemplo, pode esconder deliberadamente um erro, negar algo para evitar alguma consequência ou tentar convencer alguém de alguma coisa.

Mas, à medida que a doença progride, torna-se cada vez mais difícil distinguir uma mentira intencional de uma afirmação falsa provocada pela própria doença.

Compreender a confabulação não significa aceitar tudo como verdadeiro. Significa perceber de onde pode estar a vir aquela informação.

Se a pessoa realmente acredita no que está a dizer, confrontá-la repetidamente pode não resolver o problema. Pelo contrário, pode provocar ansiedade, frustração, discussão e até desconfiança em relação ao cuidador.

Em vez de dizer: “Isso é mentira Nunca aconteceu!”

Pode ser mais eficaz responder: “Eu percebo que se lembra dessa forma. Vamos confirmar juntos.”

Ou então simplesmente redirecionar a conversa quando não existe risco ou consequência importante.

 

 

 

Acamada, cuidada, mas esquecida por dentro

Um dia, como qualquer outro, estava a prestar cuidados a uma senhora, em estado avançado de Alzheimer e acamada.

Cuidadosamente estava a trocar a fralda da senhora. Algo normal na minha profissão. Mas, parei por uns instantes e olhei para o seu rosto. Estava com a cara ligeiramente inclinada em direção á janela. Um olhar vazio, um olhar triste. Como que estivesse a pensar: “Faz o que tens a fazer, já estou habituada. Afinal, não posso fazer mais nada, não tenho mais autonomia e dependo de ti. Faz o teu trabalho para eu voltar a dormir.”

Algo despertou em mim naquele momento. Nós profissionais de saúde e os familiares cuidadores, já fazemos as coisas automaticamente. E até criámos uma rotina. Mudamos a fralda, fazemos as mudanças de decúbito na cama, damos a medicação. Sem aviso prévio, sem comunicação, sem um sorriso ou sem prestar atenção ao rosto do doente. Como se, ao ter demência, a pessoa deixou de existir, deixou de ter uma identidade, um passado. Passamos a ver aquela pessoa, como alguém que está ao nosso cuidado. Fazemos a higiene pessoal, mudamos a roupa da cama, damos alimentação, e não há uma aproximação mais pessoal. É algo, robótico.

Mas, afinal, aquela pessoa já teve um passado, teve a sua personalidade. Já teve imensas histórias e já foi útil á sociedade. Mas, agora, a pessoa apenas, existe. Nós a acordamos, damos banho, damos alimentação, medicação, e mudamos a fralda, tudo com o seu horário organizado, e a pessoa, apenas obedece.

Como cuidadores, não podemos devolver anos de vida ou a saúde do utente, mas podemos dar vida aos anos que restam.

Um toque com carinho, uma conversa, uma música, um sorriso ou simplesmente segurar uma mão podem fazer a diferença. Mesmo que a pessoa já não tenha capacidade de falar, ela está a sentir.

Uma música que relembre a sua infância, ou outro momento especial do utente, pode devolver um brilho, no seu olhar vazio.

Um sorriso, uma pequena conversa, um olhar fixo, pode fazer diferença.

Por detrás de cada olhar distante, existe uma história que merece ser lembrada.

Quando de repente o familiar conversa em fase avançada da demência. Nem sempre é bom sinal

O seu familiar em estado avançado de demência, já não fala muito ou então já nem fala.

Mas, sem ninguém esperar, um dia ele começa a falar. Você olha para o familiar, e o seu coração enche de alegria. Cuidado: nem sempre é bom sinal!

Em fases avançadas da demência, quando uma pessoa já não fala há muito tempo ou comunica apenas através do olhar e de pequenas expressões faciais, ouvir repentinamente palavras ou frases pode ser um momento surpreendente para a família e cuidadoras. É natural que surja a esperança de uma melhoria ou de uma recuperação das capacidades perdidas. No entanto, nem sempre esta mudança representa uma evolução positiva do estado da pessoa.

O aparecimento súbito de fala ou de uma maior agitação verbal pode ser uma forma de expressar que algo não está bem.

Muitas vezes, pessoas com demência avançada já não conseguem comunicar claramente a dor, desconforto ou mal-estar. Nesses casos, alterações inesperadas no comportamento podem ser um importante sinal de alerta.

Uma infeção urinária, febre, dor, obstipação, retenção urinária, dificuldade em respirar, efeitos secundários de medicamentos ou até uma simples mudança na rotina podem provocar alterações no estado mental e na forma como a pessoa se expressa.

Lembro-me um caso em específico, eu cuidava de um senhor com Alzheimer e eu ia ficar com ele pela primeira vez no turno da noite. Custou muito ele dormir nessa noite. Estava mais comunicativo, inquieto e estava constantemente a levantar-se da cama. Só conseguiu dormir pelas 5h da manhã, quando ouviu a voz da mulher, que lhe era bem familiar. A minha voz, ele não conhecia, eu era uma estranha. A mulher trouxe conforto e ele conseguiu dormir.

Quando ele estava na fase final da doença, já nem falava, só comunicava aos gritos, quando as enfermeiras alteravam a sua posição da cama (ele já estava acamado). Acredito que ficava assustado e as mudanças de decúbito causavam-lhe alguma dor.

Três semanas antes dele falecer, houve um dia em que ele comunicava bastante comigo. Dizia coisas bem acertadas e conseguíamos manter uma boa conversa. Saí do meu turno, com o coração cheio. Dia seguinte, já não falou mais e o seu estado de saúde foi ficando cada vez mais debilitado.

Algumas pessoas tornam-se mais agitadas, outras chamam repetidamente por familiares, falam frases desconexas ou utilizam palavras que há muito tempo não eram ouvidas.

Outro caso que tive, cuidava de uma senhora com demência mista, falava muito pouco, mas, haviam certas horas do dia em que começava a rezar, a conversar, a ficar ansiosa. Quis investigar. Pensei logo que estaria com algum tipo de dor.

Deitei ela na cama, e procurava por feridas, até que e encontrei a região logo acima do cóccix (a base das costas), vermelha. A razão para isso, era que estava sentada a algum tempo, e já estava a começar a magoar. Mudanças na rotina, almofada especial e colchão anti-escaras, aliviaram as dores e resolveu o problema.

Por isso, sempre que surgir uma mudança repentina na comunicação de uma pessoa com demência avançada, é importante observar com atenção e avaliar possíveis causas físicas ou emocionais.

A demência pode retirar as palavras, mas não elimina as necessidades, os sentimentos ou o desconforto. Quando a fala reaparece de forma inesperada, ela pode ser mais do que uma simples conversa. Pode ser uma forma que a pessoa encontrou para comunicar que precisa de ajuda.

Quando o familiar estiver agitado ou a comunicar mais, verifique alguns sinais:

  • Se tem prisão de ventre (escreva ou aponte num calendário, sempre que evacuar)
  • Se tem alguma dor por estar muito tempo sentado (inquietação na cadeira)
  • Se tem calor (tenta tirar a roupa, apresenta suor ou cara vermelha)
  • Se tem febre
  • Se tem vontade de urinar (inquietação, mãos nas fraldas ou calças)

A despedida mais difícil: os últimos dias com Alzheimer

Há despedidas que começam devagar. E, como cuidadora, já presenciei despedidas dolorosas.

No Alzheimer, muitas vezes perdemos a pessoa aos poucos, entre silêncios, esquecimentos e olhares que já não conseguem encontrar o caminho de volta.

Muitas vezes, é uma aventura, um misto de emoções, durante o cuidado de alguém com esta patologia. Muitas vezes eles não reconhecem o familiar, são agressivos, parecem “mal agradecidos”, ou que nem estão a ouvir o que estamos a dizer. Parece que fazem mesmo de prepósito. Mas, há dias em que eles de repente conhecem o familiar e são mais calmos. Chamam pelo nome, ou sabem que são pessoas importantes na vida deles. E, são esses momentos que são mais gratificantes, que afinal, a pessoa ainda existe, dentro daquela confusão no cérebro.

E, nos últimos dias, o coração vive com o desejo de segurar e a necessidade de deixar partir.

Os cuidados paliativos ensinam algo profundamente humano: nem sempre é possível curar, mas é sempre possível cuidar. Cuidar da dor, do conforto, da dignidade e do amor até ao último instante. Às vezes, o maior gesto de amor é simplesmente estar presente. Segurar uma mão, falar com calma, acariciar o rosto e dizer: “Pode descansar. Está tudo bem”

Dizer adeus nunca é fácil. Mas permitir que alguém parta em paz também é uma forma de amor. Porque algumas pessoas deixam de lembrar os nossos nomes, mas nunca deixam de sentir o carinho com que foram cuidadas.

No vídeo abaixo, mostra uma dessas despedidas.

Ana Heloisa Brandao, cuidou da mãe, com Alzheimer. E entre tantas conversas que faziam parte da rotina diária entre mãe e filha, a filha decidiu despedir-se da mãe, algumas semanas antes desta falecer.

“Algumas pessoas me criticaram por eu ter postado esse momento, mas durante todos esses anos compartilhei com vocês cada fase da nossa caminhada. Achei que essa despedida também poderia ajudar alguém.
Talvez exista alguém querendo se despedir… e sem saber como fazer.
Não precisa de palavras perfeitas. Tenha apenas uma conversa com o coração aberto. Diga o que sente. Permita que o amor fale mais alto que a dor.
E, acima de tudo, liberte quem você ama desse sofrimento.
Isso fará bem para você… e também para quem está partindo”- Disse Ana Heloisa.
Este vídeo, é emocionante, mas, a meu ver, é algo que merece ser compartilhado. Porque, se há uma certeza na vida, é que um dia vamos morrer. Um dia o nosso querido familiar vai morrer. E, a despedida, consegue tão libertadora, tanto para o familiar, tanto para nós.

Amar também é ficar: A história de quem cuidou da mãe com Alzheimer

Anna Izabel Arnaut tinha 93 anos e,  teria sido diagnosticada com Síndrome de Alzheimer.  Ana Heloisa Caldas Arnout, registou uma das variadas conversas que tinha com a mãe todas a noites, antes de dormir e decidiu postar o vídeo em seu perfil pessoal no Facebook, apenas para compartilhar o momento com amigos. A publicação, que era algo vista como banal, comoveu internautas de todo o país e alcançou mais de 330 mil compartilhamentos na rede social, em apenas um mês.
A repercussão surpreendente fez com que duas amigas incentivassem a mulher de 55 anos a criar uma página na rede social, para contar a história da mãe e mostrar para outras pessoas que vivem momentos parecidos, que as coisas não são tão ruins como parecem. Outro susto: em apenas três dias, a página já conta com mais quase 50 mil curtidas. “Foi uma surpresa. Eu estava esperando a participação de amigos e alguns familiares, só de pessoas próximas mesmo. Quando eu vi que tinha milhares de curtidas, eu me surpreendi”, revelou a mulher, natural de Caxambú, no interior de Minas Gerais.
Atualmente, vivendo em Belo Horizonte, Ana  sempre esteve próxima da mãe. “Se ficamos quatro anos separadas, morando longe, foi muito. Vivi algum tempo no Rio de Janeiro, mas logo voltei para cá, para perto dela”, afirmou. E foi em 2003 que ela recebeu a notícia de que a mãe e grande amiga, na época com 82 anos, sofria com a Síndrome de Alzheimer. “Para um filho, é tudo muito difícil. É uma morte em vida. A doença vai roubando ela aos poucos de mim”, revelou.
Ao passo que muitas pessoas se deixariam abater com a situação e desistiriam de lutar para manter viva a relação com aqueles que amam, Ana se mostrou forte e, desde o diagnóstico, procurou dar à mãe uma vida mais digna possível. “Todas as noites a gente conversa, bate um papo, faz uma oração. Isto é muito importante para mim e para ela”, contou. “Mesmo ela não me reconhecendo as vezes, eu vejo que este momento é bom para ela. A gente brinca, sempre com muito amor e carinho”, completa.
Cuidar de uma mãe com Alzheimer é viver um luto lento, enquanto o amor continua vivo todos os dias.
É repetir o nome, a história, o carinho… mesmo quando não há reconhecimento no olhar.
Mas há filhos que ficam. Que seguram a mão até ao fim. Que escolhem amar também na doença, na confusão e no silêncio. Porque algumas memórias desaparecem, mas o amor verdadeiro não.
E, este vídeo abaixo, mostra mesmo isso. O carinho e a ternura, entre mãe e filha.

Infelizmente, esta linda senhora já faleceu, mas a filha continua a partilhar as experiências que teve com a sua mãe, para também educar e ajudar outras famílias que precisam uma orientação sobre esta doença.

Para mais vídeos e dicas, siga a página do Facebook:

https://www.facebook.com/alzheimer.annaizabel

https://alzheimerminhamaet.wixsite.com/anas

 

 

Quando a Coluna Cede: O Desafio dos Desvios Posturais nas Doenças Neurodegenerativas

Cuidar de alguém com uma doença neurodegenerativa como Parkinson, Alzheimer ou Esclerose Lateral Amiotrófica (ELA) , é uma jornada de adaptação constante. Numa fase inicial, a nossa atenção foca-se quase sempre nas falhas de memória, nas alterações de comportamento ou nos tremores. Contudo, à medida que estas condições avançam, o corpo começa a desenhar um novo desafio físico, muitas vezes visível à distância: a coluna começa a desviar-se para o lado ou a inclinar-se severamente para a frente.
Para quem cuida, ver a pessoa querida ficar “torta” ou curvada causa uma enorme angústia. É fundamental compreender que este desvio não é uma teimosia postural nem um problema puramente dos ossos. Você não errou ao sentar o seu familiar na cadeira.
Trata-se do reflexo visível de um cérebro que está a perder a capacidade de controlar os músculos que nos mantêm de pé.
Por que razão o corpo se inclina?
A nossa coluna mantém-se direita graças a um trabalho de equipa perfeito entre o cérebro e os músculos das costas e do abdómen. Nas doenças neurodegenerativas, a “fiação elétrica” que envia as ordens do cérebro para estes músculos começa a falhar.
Isto manifesta-se de três formas principais:
  • Fraqueza muscular assimétrica: Muitas vezes, um dos lados do corpo perde força mais rapidamente do que o outro. Sem o suporte adequado, a gravidade vence e o tronco tomba para o lado mais fraco ou é puxado pelo lado mais forte.
  • Rigidez e espasmos: Em doenças como o Parkinson, os músculos podem tornar-se tão rígidos que forçam o corpo a adotar uma posição curvada (conhecida como camptocormia) ou totalmente inclinada para o lado (chamada Síndrome de Pisa).
    • Perda da perceção corporal: Em fases avançadas de demências (como o Alzheimer), o doente perde a noção tridimensional do próprio corpo e do espaço, inclinando-se sem perceber que está desalinhado.
    • Nos estados avançados do Alzheimer, é muito comum o idoso começar a sentar-se torto, deslizar do sofá ou perder o alinhamento com o corpo. Isso acontece porque  cérebro deixa de coordenar bem a postura, o equilíbrio e a perceção corporal.
      O impacto no dia a dia do doente e do cuidador
      Estes desvios posturais trazem consequências que vão muito além da estética:
      1. Aumento do risco de quedas: Com o corpo inclinado, o centro de gravidade muda. O equilíbrio fica gravemente afetado, tornando o ato de andar ou de se levantar altamente perigoso.
      2. Dificuldade em respirar e comer: O tronco curvado comprime os pulmões e o estômago. Isto pode dificultar a respiração profunda e aumentar o risco de engasgamento durante as refeições.
      3. Dor e isolamento: A postura forçada causa dores musculares contínuas. Além disso, ao não conseguir olhar em frente, o doente tende a isolar-se e a interagir menos com quem o rodeia.
        Como o cuidador pode ajudar? Estratégias Práticas
        Embora nem sempre seja possível corrigir o desvio por completo, o papel do cuidador é vital para garantir o conforto, prevenir lesões e aliviar a dor.
        • Estimule a mudança de posição: Evite que a pessoa passe horas exatamente na mesma posição. Se estiver na cama, faça alternância de lados e use almofadas entre os joelhos para alinhar a coluna.
        • Fisioterapia especializada: A fisioterapia neurológica não procura a postura perfeita, mas sim manter a flexibilidade possível, alongar os músculos encurtados e ensinar transferências seguras da cama para a cadeira.
        • Adapte o ambiente: Se o doente ainda caminha, garanta que os corredores estão livres de tapetes. Instale barras de apoio nas paredes para compensar o desvio do equilíbrio.
        • Ajuste o posicionamento nas cadeiras e sofás: Quando o doente estiver sentado, evite que fique tombado. Utilize almofadas posturais, rolos de espuma ou toalhas enroladas nas laterais do tronco para dar suporte. Manter os pés bem apoiados no chão ou num suporte é crucial para estabilizar a bacia.
        • Conclusão: O foco é a dignidade
          Diante de doenças neurodegenerativas, o objetivo do tratamento da coluna não é a simetria perfeita que vemos num raio-X. O verdadeiro sucesso mede-se pelo bem-estar. Garantir que o seu familiar está sentado confortavelmente, sem dores, capaz de respirar livremente e de olhar nos olhos de quem ama é o maior ato de cuidado e dignidade que lhe pode oferecer.
          Se notar que o desvio da coluna do seu familiar está a progredir rapidamente ou a causar desconforto, converse com o neurologista ou com um médico fisiatra para reajustar o plano de reabilitação.

Onde o Alzheimer não levou o amor

Eu uso o Tik Tok. Muitas pessoas podem considerar que é uma aplicação banal ou que não tem conteúdo. Mas, dependendo daquilo que procuramos, encontramos muitos vídeos educacionais e profundos.

Sendo eu, uma entusiasta do assuntos acerca do nosso cérebro, também procuro vídeos sobre a minha área: cuidados de demências, geriatria, transtornos mentais, etc.

Eis que um dia estava na aplicação e apareceram uns vídeos, que não fiquei nada indiferente. Um senhor, com 91 anos, vulnerável, brincando com coisinhas simples. Bonequinhos, garrafas… e o mais surpreendente, a forma que a família cuida dele. Foi amor á primeira vista.

Decidi escrever para a filha cuidadora dele. Em primeiro lugar, tinha de elogiar o pai e  forma como cuidam dele. E, tinha de partilhar a história deles. Uma história, do mais variado leque de histórias, que muitas famílias tem, especialmente quando a demência bate á porta.

No interior quente de Sátiro Dias, onde o vento levanta poeira nas estradas de terra, vive o Senhor Antônio, conhecido como António de aurinha. Com ele, moram mais 4 pessoas: a mulher, a filha mais nova e o filho dela.

Um homem que foi muito trabalhador, de gênio forte, que sustentou sete filhas. Na verdade, eram 11, mas morreram quatro e ele sempre acordava as 4h da manhã para pegar Caju Umbu.

Antes do Alzheimer, ele era conhecido como um homem forte. Nunca reclamou do trabalho, pois nada era mais gratificante  do que colocar alimentos na mesa, ele certificava-se que nunca faltaria comida para a sua família.

Mas a doença foi chegando devagar. Primeiro vieram os esquecimentos pequenos, depois os caminhos desapareceram dentro da própria cabeça dele.

Taize, a filha mais nova, aprendeu a sofrer em silêncio.

Aprendeu a dar banho como quem embala uma criança.

A repetir a mesma resposta vinte vezes sem perder a calma. A esconder o cansaço atrás de um sorriso, quando ele perguntava: “Minha filha, eu já almocei?”

O amor, ás vezes, não aparece em grandes gestos Aparece  numa colher de sopa dada devagar, um cafezinho com todo o cuidado, numa fralda trocada com respeito.

E embora o Alzheimer estivesse levando as memórias do pai, Taize lutava todos os dias para que ele nunca esquecesse uma coisa: que era amado.

Ele já não tem a força dos homens da roça de antigamente.

As mãos estão magras, a pele marcada pelo tempo, e o olhar parece caminhar entre lembranças que ninguém mais consegue alcançar. Aos 91 anos, sentado na sua cadeirinha, ele carrega no corpo o peso de uma vida inteira.

Talvez ninguém imagine que aquele homem frágil já enfrentou sol forte, terra seca e dias difíceis para sustentar a família no interior de Sátiro Dias.

Hoje, o Alzheimer apagou muitos caminhos dentro da sua memória. Mas há coisas que a doença ainda não conseguiu levar: a dignidade do seu rosto, a história escrita nas suas mãos e o amor silencioso de quem continua ao lado dele todos os dias.

Naquele pequeno gesto e segurar um brinquedo nas mãos cansadas, existe algo mais profundamente humano. Um homem que um dia protegeu os outros, agora precisa ser protegido.

Conheçam a história deste senhor, e vejam o dia a dia, da família e a forma como cuidam.

Cliquem no link, e apaixonem-se, como eu.

@izetay1

 

Demência causada pelo consumo excessivo de álcool e má nutrição-Síndrome de Wernicke-Korsakoff

As demências são doenças que afetam o cérebro, causando perda gradual da memória, do raciocínio, da linguagem, do comportamento e da autonomia. Muitas pessoas pensam que existe apenas o Alzheimer, mas na verdade existem vários tipos de demência, cada uma com características diferentes.

A mais conhecida é a Doença de Alzheimer, que começa geralmente com esquecimentos, dificuldade em aprender informações novas e desorientação. Com o avanço da doença, a pessoa pode deixar de reconhecer familiares, perder a capacidade de comunicar e necessitar de ajuda total.

Existe também a Demência Vascular causada por pequenos AVCs ou alterações na circulação sanguínea do cérebro. Pode provocar dificuldades de atenção, lentidão mental, alterações de humor e problemas de mobilidade.

A Demência com Corpos de Lewy mistura sintomas de demência com características semelhantes ao Parkinson, como tremores, rigidez e alucinações visuais muito frequentes.

Já a Demência Frontotemporal costuma atingir pessoas mais jovens e altera sobretudo a personalidade, o comportamento e a linguagem. Muitas vezes a família nota primeiro mudanças emocionais e sociais antes dos esquecimentos.

Outra forma menos falada, mas muito importante, é a demência causada pelo consumo excessivo de álcool. O abuso prolongado do álcool pode danificar o cérebro, provocar défice de vitamina B1 e levar a dificuldades graves de memória, confusão mental, alterações de comportamento e perda de autonomia. Em alguns casos surge a chamada Síndrome de Werncike-Korsakoff, considerada uma forma de demência associada ao alcoolismo crónico e também a uma má nutrição grave, por dietas ruins, problemas de estômago ou cirurgias de redução do estômago.

A Sìndrome de Korsakoff é uma perturbação neurocognitiva grave, embora possa apresentar características semelhantes às de uma demência, nomeadamente défices importantes de memória e aprendizagem, não é uma demência neurodegenerativa como a doença de Alzheimer. Em alguns contextos  é designada por “Demência de Korsakoff” devido ao carácter persistente dos défices cognitivos.

Esta demência associada ao consumo excessivo de álcool é uma condição séria e muitas vezes pouco compreendida. O álcool, quando consumido durante muitos anos em grandes quantidades, pode provocar  danos permanentes no cérebro, afetando a memória ,o raciocínio, o comportamento e a capacidade da pessoa cuidar de si própria.

Muitas pessoas acreditam que  álcool prejudica apenas o fígado, mas o cérebro também sofre bastante.

Esta Síndrome pode começar com sintomas como:

  1. Confusão mental
  2. Dificuldades de equilíbrio
  3. Olhar perdido ou movimentos anormais dos olhos
  4. Esquecimentos frequentes
  5. Dificuldades em aprender informações novas
  6. O cérebro inventa histórias sem intenção de mentir para preencher os vazios da memória.

Além da memória,  comportamento também muda. Algumas pessoas tornam-se mais irritadas, impulsivas, desconfiadas ou emocionalmente instáveis. Outras perdem iniciativa, higiene pessoal e capacidade de organização.

Diferente de algumas demências neurodegenerativas, a demência alcoólica pode estabilizar ou melhorar parcialmente se o consumo de álcool for interrompido cedo e houver tratamento adequado, alimentação correta e suplementação vitamínica. Porém, quando os danos já são extensos, parte das alterações pode tornar-se permanente.

Por isso, o alcoolismo não deve ser visto apenas como um vício ou falta de força  vontade. Em muitos casos, trata-se de uma doença que acaba por afetar profundamente o cérebro, a personalidade e a autonomia da pessoa.

E o que a vitamina B1 tem a ver com o cérebro?

A tiamina é essencial para o cérebro transformar a glicose em energia. O cérebro depende muito desse processo.

Quando há uma deficiência importante de B1, algumas áreas cerebrais ficam particularmente vulneráveis, sobretudo envolvidas na memória e orientação.

E como a má nutrição pode causar deficiência de B1?

Não é preciso a pessoa estar extremamente magra. Pode acontecer quando  a alimentação é muito reduzida durante semanas ou meses, falta de apetite prolongada, dietas muito restritivas, consumo crónico de álcool, vómitos persistentes e problemas de absorção intestinal.

Quanto mais cedo corrigir a deficiência nutricional, melhor.

Quais as fontes de vitamina B1?

Carne de porco, sementes de girassol, sementes de sésamo, amendoins, feijão, lentilhas, grão de bico, aveia, pão e cereais integrais, frutos secos e peixe.

 

 

 

 

Amor para a eternidade

Ao longo do meu percurso como cuidadora de idosos, já presenciei muitas histórias. E tenho aprendido muito. Tenho aprendido, que afinal, ainda existem aquelas histórias de amor, que pensávamos que existiam só nas telenovelas. Entre algumas histórias lindas de amor que já presenciei, esta se destaca.
Um casal de idosos. Ele na altura tinha 89 anos, quando comecei a cuidar dele. E ela, 88. Se existem casais que foram feitos um para o outro, este casal com certeza seria um deles.
Todas as manhãs, ele fazia questão de levantar-se mais cedo, para me ajudar a preparar o pequeno almoço para a esposa. Ele fazia para ele, mas dividia sempre o seu comer com a sua mulher. Ali não havia egoísmo. Era tudo dividido. Ele pensava em todos os detalhes. Enchia sempre o copo com água para a esposa e olhava para mim, atentamente, a ver se eu fazia as coisas corretas para a mulher. Não no sentido autoritário, mas ele fazia questão que nada faltasse ao amor da vida dele. Depois iam ver televisão os dois. Lado a lado, de mãos dadas. E ele, com a sua paciência e dedicação, oferecia água a ela, caso ela tivesse sede. E quando ela deitava-se na cama, não poderia faltar, aquele beijinho carinhoso.
Haviam momentos engraçados, me lembro de uma vez que ele gostava de comentar sobre o tempo: “Está sol, mas está frio!” e isto repetia-se durante o dia. A esposa, com um olhar de chateada, disse-me: “Ele já me aborrece, diz sempre a mesma coisa!”-pormenor, ela tinha alzheimer.
Lembro-me um dia importante, quando ele fez 90 anos, veio a família comemorar e felizmente calhou eu estar a trabalhar nesse dia. Eu observava ele. Ele estava num canto, na mesa, de frente para todos, e olhava-os a conviver. Não seria difícil tentar adivinhar o que ele estava a pensar nessa hora. O olhar de orgulho, o denunciava. Orgulho de ter formado uma família tão bonita e acolhedora. Mas também acredito, que ele perguntava a si próprio, se esse seria o último aniversário que passariam todos, reunidos.
Infelizmente, passado pouco tempo, ele faleceu. A esposa sentia a falta dele. A cada dia que passava, eu notava que ela sentia-se triste. E era de partir o coração, quando ela chamava por ele. Quando ela dizia para ele acordar e levantar-se. Mas ninguém respondia. A cama estava vazia, e a esposa sentia-se como aquela cama. Vazia.
Talvez ele, lá de cima, estava a ver ela a sofrer. Talvez, ela já tivesse perdido a vontade de viver. Já não fazia sentido, estar sozinha naquela cama. Embora ela dormia com um bonequinho especial, que eu coloquei para a aconchegar, nunca seria igual, á companhia do seu verdadeiro amor. E eu acredito, ele já estava a chamar por ela. Era hora de partir.
E assim foi, 3 semanas sensivelmente depois, ela partiu deste mundo, em paz, e foi ao encontro do amor da vida dele. Eram almas gémeas.
Se fico triste com o falecimento deles? Fico, e muito. Em tão pouco tempo que trabalhei lá, sentia o amor deles e aprendi muito.
É uma das razões que adoro o que faço. Nunca sei o que me espera. Cuido sempre com alma e coração e ganho depois, estrelinhas no céu. Paz ás suas almas.