Demência causada pelo consumo excessivo de álcool e má nutrição-Síndrome de Wernicke-Korsakoff

As demências são doenças que afetam o cérebro, causando perda gradual da memória, do raciocínio, da linguagem, do comportamento e da autonomia. Muitas pessoas pensam que existe apenas o Alzheimer, mas na verdade existem vários tipos de demência, cada uma com características diferentes.

A mais conhecida é a Doença de Alzheimer, que começa geralmente com esquecimentos, dificuldade em aprender informações novas e desorientação. Com o avanço da doença, a pessoa pode deixar de reconhecer familiares, perder a capacidade de comunicar e necessitar de ajuda total.

Existe também a Demência Vascular causada por pequenos AVCs ou alterações na circulação sanguínea do cérebro. Pode provocar dificuldades de atenção, lentidão mental, alterações de humor e problemas de mobilidade.

A Demência com Corpos de Lewy mistura sintomas de demência com características semelhantes ao Parkinson, como tremores, rigidez e alucinações visuais muito frequentes.

Já a Demência Frontotemporal costuma atingir pessoas mais jovens e altera sobretudo a personalidade, o comportamento e a linguagem. Muitas vezes a família nota primeiro mudanças emocionais e sociais antes dos esquecimentos.

Outra forma menos falada, mas muito importante, é a demência causada pelo consumo excessivo de álcool. O abuso prolongado do álcool pode danificar o cérebro, provocar défice de vitamina B1 e levar a dificuldades graves de memória, confusão mental, alterações de comportamento e perda de autonomia. Em alguns casos surge a chamada Síndrome de Werncike-Korsakoff, considerada uma forma de demência associada ao alcoolismo crónico e também a uma má nutrição grave, por dietas ruins, problemas de estômago ou cirurgias de redução do estômago.

A Sìndrome de Korsakoff é uma perturbação neurocognitiva grave, embora possa apresentar características semelhantes às de uma demência, nomeadamente défices importantes de memória e aprendizagem, não é uma demência neurodegenerativa como a doença de Alzheimer. Em alguns contextos  é designada por “Demência de Korsakoff” devido ao carácter persistente dos défices cognitivos.

Esta demência associada ao consumo excessivo de álcool é uma condição séria e muitas vezes pouco compreendida. O álcool, quando consumido durante muitos anos em grandes quantidades, pode provocar  danos permanentes no cérebro, afetando a memória ,o raciocínio, o comportamento e a capacidade da pessoa cuidar de si própria.

Muitas pessoas acreditam que  álcool prejudica apenas o fígado, mas o cérebro também sofre bastante.

Esta Síndrome pode começar com sintomas como:

  1. Confusão mental
  2. Dificuldades de equilíbrio
  3. Olhar perdido ou movimentos anormais dos olhos
  4. Esquecimentos frequentes
  5. Dificuldades em aprender informações novas
  6. O cérebro inventa histórias sem intenção de mentir para preencher os vazios da memória.

Além da memória,  comportamento também muda. Algumas pessoas tornam-se mais irritadas, impulsivas, desconfiadas ou emocionalmente instáveis. Outras perdem iniciativa, higiene pessoal e capacidade de organização.

Diferente de algumas demências neurodegenerativas, a demência alcoólica pode estabilizar ou melhorar parcialmente se o consumo de álcool for interrompido cedo e houver tratamento adequado, alimentação correta e suplementação vitamínica. Porém, quando os danos já são extensos, parte das alterações pode tornar-se permanente.

Por isso, o alcoolismo não deve ser visto apenas como um vício ou falta de força  vontade. Em muitos casos, trata-se de uma doença que acaba por afetar profundamente o cérebro, a personalidade e a autonomia da pessoa.

E o que a vitamina B1 tem a ver com o cérebro?

A tiamina é essencial para o cérebro transformar a glicose em energia. O cérebro depende muito desse processo.

Quando há uma deficiência importante de B1, algumas áreas cerebrais ficam particularmente vulneráveis, sobretudo envolvidas na memória e orientação.

E como a má nutrição pode causar deficiência de B1?

Não é preciso a pessoa estar extremamente magra. Pode acontecer quando  a alimentação é muito reduzida durante semanas ou meses, falta de apetite prolongada, dietas muito restritivas, consumo crónico de álcool, vómitos persistentes e problemas de absorção intestinal.

Quanto mais cedo corrigir a deficiência nutricional, melhor.

Quais as fontes de vitamina B1?

Carne de porco, sementes de girassol, sementes de sésamo, amendoins, feijão, lentilhas, grão de bico, aveia, pão e cereais integrais, frutos secos e peixe.

 

 

 

 

A doença de Parkinson

A doença de Parkinson é uma doença neurodegenerativa progressiva que afeta principalmente os movimentos, mas também pode impactar emoções, sono, memória e autonomia ao longo do tempo. Surge devido à perda de células cerebrais responsáveis pela produção de dopamina, uma substância essencial para o controlo dos movimentos.

Os sinais mais conhecidos são o tremor em repouso, rigidez muscular, lentidão dos movimentos e alterações no equilíbrio. No entanto, muitos sintomas começam antes mesmo dos tremores, como perda do olfato, alterações do sono, ansiedade, depressão e cansaço constante.

Cada pessoa vive o Parkinson de forma diferente. Algumas mantêm autonomia durante muitos anos, enquanto outras evoluem mais rapidamente.

O acompanhamento médico, fisioterapia ocupacional e apoio emocional fazem uma grande diferença na qualidade de vida.

Mais do que olhar apenas para a doença, é importante olhar para a pessoa. O Parkinson não apaga a identidade, a história e os sentimentos e quem o vive.

A demência de Parkinson

A demência associada à doença de Parkinson, pode surgir em fases mais avançadas da doença. Além das dificuldades motoras, começam a aparecer alterações cognitivas que afetam a memória, atenção, raciocínio, orientação e capacidade de realizar tarefas do dia a dia.

A pessoa pode apresentar maior lentidão mental, dificuldades em encontrar palavras, confusão, alterações de humor, alucinações visuais e mudanças de comportamento. Muitas vezes estes sintomas causam sofrimento tanto para o doente quanto para a família, porque a personalidade e a independência começam a ser afetadas.

É importante compreender que a demência de Parkinson não é “teimosia” nem “falta de vontade”. Trata-se de alterações reais no cérebro, que exigem paciência, adaptação e muito apoio emocional.

O carinho, a comunicação calma, as rotinas simples e um ambiente seguro ajudam a reduzir a ansiedade e a dar mais conforto à pessoa. Cuidar de alguém com demência também exige cuidar de quem cuida, porque o desgaste físico e emocional pode ser muito grande.

E o que se passa no cérebro, principalmente com a diminuição da dopamina?

A diminuição de dopamina pode contribuir para sintomas de depressão, apatia, perda de motivação e prazer.

A dopamina está muito ligada ao sistema de recompensa do cérebro, ou seja, à sensação de motivação, interesse, energia e satisfação.

Na doença de Parkinson, a perda de neurónios na substância negra reduz a doamina, e isso não afeta apenas os movimentos. Também pode afetar:

  • Humor
  • Motivação
  • Capacidade de sentir prazer
  • Energia mental
  • Interesse pelas atividades
  • Concentração

Por isso, muitas pessoas desenvolvem:

  • Depressão
  • ansiedade
  • apatia emocional
  • isolamento social

A depressão no Parkinson não é apenas uma reação psicológica ao diagnóstico. Muitas vezes faz parte da própria alteração química do cérebro causada pela doença.

Défice Cognitivo Ligeiro (DCL)

O défice cognitivo ligeiro (DCL) é uma condição caracterizada por uma diminuição leve, mas perceptível, das capacidades cognitivas, como a memória, a atenção ou o raciocínio. Vai além do envelhecimento normal, mas ainda não é suficientemente grave para interferir de forma significativa com a autonomia do dia a dia.

Pessoas com DCL podem apresentar sinais como:

  • Esquecimentos mais frequentes (nomes, compromissos, conversas recentes)
  • Dificuldade em encontrar palavras
  • Maior lentidão no pensamento ou na tomada decisões
  • Perda de concentração em tarefas mais exigentes

Apesar destas alterações, a pessoa continua, na maioria dos casos, a conseguir realizar as suas atividades diárias de forma independente.

É importante perceber que o DCL não é necessariamente uma demência, como o Alzheimer. Em alguns casos, pode manter-se estável durante anos ou até melhorar, especialmente se estiver relacionado com fatores como stress, depressão, falta de sono ou medicação. No entanto, pode evoluir para doenças neurodegenerativas.

O diagnóstico é feito pelos profissionais de saúde, através de avaliação clínica e testes cognitivos. A intervenção precoce é fundamental e pode incluir:

  • Estimulação cognitiva
  • Atividade física regular
  • Alimentação equilibrada
  • Controlo de doenças como diabetes ou hipertensão
  • Manutenção de uma vida social ativa

O DCL não tem uma única causa. Na verdade, é resultado de vários fatores que podem afetar o cérebro.

Algumas causas são reversíveis, outras podem estar ligadas ao início de doenças mais complexas.

As principais causas incluem:

  1. Envelhecimento cerebral. Com o passar dos anos, o cérebro sofre alterações naturais. Em algumas pessoas, essas mudanças são mais acentuadas e dão origem ao défice cognitivo ligeiro.
  2. Doenças neurodegenerativas. Em certos casos, o DCL pode ser uma fase inicial de doenças como demências.
  3. Problemas vasculares. Alterações na circulação sanguínea cerebral (como pequenos AVC’s ou má irrigação) podem afetar a memória e o raciocínio
  4. Depressão ou ansiedade. A saúde mental tem um impacto direto na cognição. Estados depressivos podem causar falta de concentração, esquecimentos e lentidão de pensamento.
  5. Distúrbios do sono. Dormir mal ou ter doenças como a apneia do sono prejudica o descanso cerebral e afeta a memória.
  6. Défices nutricionais. Falta de vitaminas, especialmente vitamina B12, pode interferir com o funcionamento do sistema nervoso.
  7. Uso de medicamentos ou substâncias. Certos medicamentos (como sedativos) ou o consumo de álcool e drogas podem afetar temporariamente a cognição.
  8. Doenças crónicas. Condições como diabetes, hipertensão ou problemas da tiroide podem impactar o cérebro ao longo do tempo.

O ponto mais importante aqui é este: nem todos os casos de DCL evoluem para demência. Quando a causa é identificada e tratada (por exemplo, depressão ou falta de vitaminas), pode haver melhoria significativa.

Se há sinais, o melhor caminho é avaliar cedo. Ignorar achando que “é da idade” costuma ser o erro que atrasa intervenções que realmente ajudam.

Compreender a ansiedade

“O mal do século” Esta e entre outras frases, costumam definir a ansiedade.

Mas, sabia que a ansiedade até um certo ponto, é uma aliada do ser humano?

Este sentimento está presente na nossa vida, justamente para que o Ser Humano sobreviva aos perigos de cada período seja ao proteger-se de predadores mortais como na pré-história ou, numa situação mais atual,  ao evitar ser-se assaltado ou atropelado, para assim ajudar a enfrentar situações de ameaça.

Para compreender melhor a ansiedade e a sua importância no nosso dia a dia, é interessante imaginar como seria a vida sem este sentimento. Desde situações mais inocentes, desde aquele frio na barriga, que deixa um momento inédito mais especial, áquelas que despertam a nossa atenção para perigo, como fugir de um carro em andamento ou de um cão enraivecido na rua.

Ou seja, é um recurso nato do ser humano que acaba por impulsionar pessoas a progredirem, dia após dia; sem isto, elas ficam desmotivadas.

As reações ansiosas, que envolvem hormonas e neurotransmissores no cérebro e no resto do corpo, despertam comportamentos que já estão pré-programados em  cada pessoa, mas que precisam deste empurrão para serem ativados.

É como uma vivência do universo do medo direcionada para o futuro, com variados tons e expectativa, angústia e agitação.

Isto resulta em manifestações físicas, psíquicas e comportamentais. Entre elas, a inquietação, um aperto no peito, e uma sensação que algo grave irá acontecer.

Segundo os especialistas, os reflexos da ansiedade pelo corpo, auxiliam na nossa sobrevivência em situações ameaçadoras.

Por um lado, a ansiedade aparenta ter um aspeto positivo para o ser humano.

Mas, como tudo o que é exagerado, acaba por atrapalhar mais, do que nos ajudar.

Esta reação também tem a capacidade de prejudicar e acabar por evoluir para um Transtorno de Ansiedade Generalizada (TAG).

Ou, outros derivados dos mesmos sintomas (fobias, síndrome do pânico, etc).

Como funciona o cérebro ansioso?

A relação entre o cérebro e ansiedade, ocorre metaforicamente da mesma forma que o fogo e o álcool.  Representados pela Adrenalina (Neurotransmissor que estimula as reações do  corpo ao stress) e o nosso organismo.

Esta adrenalina precisa ser queimada,  que causa ações diferentes em cada parte do nosso corpo. Pode provocar tonturas, taquicardia, boca seca, dificuldade respiratória, tremores, frio na barriga, inquietação, visão turva, arrepios, sensação de queda, e sensação que vai morrer na hora).

Para além da Adrenalina, a disfunção da Serotonina (regula o sono e o humor)  Dopamina ( proporciona sensações de recompensa) também é uma característica marcante dos quadros de ansiedade.

A ansiedade afeta o cérebro, ativando de forma excessiva a amígdala,  nosso “Centro de alarme” enquanto a comunicação com o córtex pré-frontal responsável pelo raciocínio e controle, fica comprometida.

O dia a dia acelerado

Uma simples frase como “Preciso falar contigo”, pode já soar o alarme no cérebro ansioso. A Partir do momento que ouvem essa frase, a mente é inundada por vários pensamentos. “Será que fiz algo de mal?”, “Será que vão acabar o nosso namoro?” “Será que fui despedido do trabalho?”

Tudo isto resume-se a uma frase: A ansiedade é  excesso de futuro.

Ás vezes, a maioria desses pensamentos e filmes, nem chegam de facto a acontecer. E isto acaba por gerar stress, medo e ansiedade.

Na era atual de informação, o uso de tecnologias acabou por facilitar a nossa vida, de uma forma mais rápida e prática. Com esta facilidade, muitas pessoas pensam que podem fazer tudo mais rápido e assumir outras coisas, antes de ter finalizado as anteriores .E aqui está o perigo. A ansiedade é um transtorno que faz com que a pessoa sinta uma total sensação de impotência em relação ao seu tempo e como administrar os seus afazeres quotidianos.

Esta acumulação de funções, faz com que a pessoa perca o sentido de prioridade. E as vezes, com a pressa ela compromete a eficácia das tarefas.

E isto faz com que a pessoa sinta-se frustrada. Como se não fosse capaz ou que não seja suficientemente boa.

Acalmar uma mente ansiosa não é sobre “parar de pensar” mas sim sobre mudar a forma como você se relaciona com esses pensamentos. Quando o volume das preocupações aumenta, o segredo é trazer o foco de volta para o momento presente e para o corpo.

Aqui estão algumas estratégias práticas e eficazes para encontrar o equilíbrio.:

Técnicas de Aterramento

Quando a mente viaja para o futuro (“e se…?), você precisa trazê-la e volta para o presente. A técnica mais famosa é a 5-4-3-2-1

  • 5 coisas que você pode ver á sua volta
  • 4 coisas que você pode tocar
  • 3 sons que você pode ouvir
  • 2 cheiros que você pode sentir
  • 1 coisa que você pode provar

Controle da respiração

A ansiedade acelera o ritmo cardíaco. Ao controlar a respiração, você envia um sinal ao cérebro de que está seguro.

Inspire por 4 segundos, segure por 4, expire por 4 e mantenha os pulmões vazios por mais 4 segundos.

Repita o ciclo.

Organize o “Caos mental”

Muitas vezes, a ansiedade surge pelo excesso de tarefas ou incertezas acumuladas.

  • Despejo mental: Escreva em um papel tudo o que está lhe preocupando, sem julgamentos. Tira o pensamento da cabeça e colocá-lo no papel reduz a carga cognitiva.

Movimente o corpo

A ansiedade é um excesso de energia (adrenalina e cortisol). Dar um destino físico a essa energia ajuda muito:

  • Uma caminhada curta de 10 minutos
  • Alongar o pescoço e os ombros (onde acumulamos tensão)
  • Sacudir as mãos e os braços para “liberar” o stress acumulado

Nota importante: Se a ansiedade for constante e interferir severamente na sua rotina, buscar a ajuda de um psicólogo ou psiquiatra é o passo mais corajoso e eficaz que você pode dar. Você não precisa carregar tudo sozinho.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Cuidar com estratégia: quando agir e quando não insistir

O seu familiar com demência está á mesa, na cozinha. São horas do pequeno almoço. Você tem o tempo todo contado e organizado, pois vai trabalhar daí a bocado ou tem outros assuntos para tratar. Você preparou aquela sandes de queijo ou papas de aveia, tudo a pensar no seu familiar. Ele sempre gostou de pão ao pequeno almoço, ou ovos ou mesmo as papas de aveia.

Mas, o tempo corre e não há muito tempo a perder. E o familiar está a demorar para comer. O pequeno almoço está a arrefecer, já não fica tão bom. O chá está a ficar frio. O pequeno almoço que fez com tanto empenho, não está a ser devidamente apreciado. E a sua frustração é mais evidente.

Ele enche a colher com papas de aveia e sem querer cai um bocado do comer na roupa ou na mesa. Ele sente-se envergonhado. Você, que está a ver a personalidade do seu familiar a desaparecer e a observar o declínio cognitivo cada vez mais acentuado, entra em pânico. Aquela pessoa, que antes pegava bem numa colher ou garfo, agora nem sabe comer direito!

E o que acontece a seguir? Saem as palavras: “Come direito! Não enchas tanto a colher! Tu não eras assim!”

O familiar, ouvindo isto, fica confuso, frustrado e sem querer tenta limpar o comer que caiu na mesa. Sem querer, suja-se nas mãos… e tenta limpa-las  nas próprias roupas, pois já se esqueceu onde colocou o guardanapo. Resultado? Uma confusão e ambiente tenso.

Mas, há algo que no momento, você se esquece: comportamento gera comportamento.

O seu familiar capta as suas emoções e automaticamente também fica frustrado. Ele entende que está a fazer algo de mal, mas não entende o quê. Ele tem alguém ao lado dele, a dizer que o que está a fazer, não está correto. Isto gera ansiedade e confusão.

Ele já não sabe dizer se tem fome, sede, se tem vontade de ir á casa de banho, se tem alguma dor. Ele já não consegue engolir bem e mastigar bem o pequeno almoço, e não consegue transmitir isso em palavras. E isto, gera ainda mais frustração da parte do familiar com demência.

Tentar convencer uma pessoa com demência com explicações lógicas é, muitas vezes, um beco sem saída. Não adianta tentar convencer a comer mais rápido ou para beber a água toda.

O problema não é a batalha diária em si. É o custo de cada batalha. Cada discussão consome energia emocional, gera cortisol, desgasta a relação e, muitas vezes, não produz resultado nenhum.

Quem está exausto de cuidar de familiar com demência precisa de aprender a fazer uma triagem: onde investir energia e onde a poupar. Não para desistir, mas para garantir que a energia vai para onde faz

Mas, nem tudo tem o mesmo peso. Classificar as situações do dia a dia em três categorias ajuda a decidir onde insistir, onde negociar e onde simplesmente ignorar.

Categoria 1: Inegociável

São as situações que envolvem segurança, saúde ou dignidade. Aqui não há margem para ceder, mas há margem para mudar a abordagem.

– Tomar medicação essencial (anticoagulantes, medicação para a tensão, antiepiléticos).
– Não conduzir quando já não é seguro.
– Manter hidratação mínima ao longo do dia.
– Não sair de casa sozinho quando há risco de desorientação.
– Ir a consultas médicas urgentes ou de seguimento crítico.
– Manter a casa sem riscos de queda evidentes (tapetes soltos, obstáculos em corredores).
– Não manipular o fogão ou aparelhos perigosos sem supervisão.
– Tratar infeções ou dor quando existem sinais claros.
– Manter a higiene mínima para prevenir infeções cutâneas ou urinárias.
– Não deixar a pessoa sozinha durante a noite quando há episódios de deambulação.

Categoria 2: Importante mas flexível


São situações que importam, mas que admitem negociação no como, no quando ou no quanto.

– Tomar banho diário, pode passar a duas ou três vezes por semana se a pessoa recusa, ou dar banho de forma diferente.
– Comer refeições completas, pode substituir-se por refeições mais pequenas e frequentes. Refeições mais pastosas. O familiar pode já ter alguma dificuldade em engolir alimentos
– Mudar de roupa todos os dias, pode aceitar-se a mesma roupa se está limpa e a pessoa está confortável.
– Ir ao centro de dia em todos os dias agendados, aceitar que há dias em que a resistência é maior.
– Manter horários rígidos de refeição, ajustar ao ritmo da pessoa nesse dia.
– Tomar medicação não essencial à hora exata, negociar uma janela de 30 a 60 minutos.
– Ir a consultas de rotina, reagendar se a pessoa está muito agitada nesse dia.
– Fazer atividade física estruturada, aceitar uma caminhada curta ou movimento em casa.
– Participar em atividades sociais, respeitar que há dias em que a pessoa precisa de silêncio.

Categoria 3: Dispensável

São batalhas que consomem energia sem retorno proporcional. Largar estas batalhas não é negligência, é inteligência.

– Corrigir factos errados (“Isso foi há 20 anos, mãe”).
– Insistir que se lembre de algo que aconteceu ontem.
– Exigir que use talheres corretamente quando já tem dificuldade motora.

– Obrigar a sentar-se à mesa para todas as refeições.
– Insistir que veja televisão “porque sempre gostou.”
– Corrigir a forma como se veste, desde que esteja confortável e segura.
– Obrigar a conversar com visitas quando está visivelmente desconfortável.
– Discutir porque disse algo “ofensivo” ou “incorreto.”
– Insistir que durma à noite toda, quando o padrão de sono já mudou.
– Tentar que mantenha passatempos que já não consegue executar.

Quando uma batalha “dispensável” se torna importante

Uma situação dispensável pode tornar-se importante ou até inegociável quando o contexto muda.
Por exemplo: insistir que a pessoa coma à mesa é dispensável enquanto se alimenta bem sentada no sofá. Mas, se a recusa de comer á mesa é porque não quer comer sozinha ou se tem dores e não consegue exprimir-se, a situação é outra. Beber água. Se a pessoa não quiser beber água no momento, mais tarde pode querer. O dia tem 24h. Ás vezes oferecer pequenos goles de água durante o dia, já é uma vitória.
Outro exemplo: corrigir factos errados é dispensável. Mas se a pessoa insiste em sair de casa para “ir buscar os filhos à escola” (filhos que são adultos há 30 anos), a situação envolve segurança e passa a inegociável, não pela correção do facto, mas pela contenção do risco.

A chave é reavaliar regularmente. O que funcionava há três meses pode já não fazer sentido. E o que parecia dispensável pode ganhar urgência.

O Alzheimer e o Amor

O nosso cérebro é fascinante. Processa tanta informação ao mesmo tempo, organiza memórias, cria ligações e reage a mundo de formas que muitas vezes nem conseguimos explicar.

Mesmo quando algumas áreas começam a falhar, como acontece em certas doenças, ele encontra formas surpreendentes de continuar a comunicar. Seja através de um olhar, de um gesto ou de uma sensação.

E, no meio disso tudo, há algo que resiste mais do que o resto: o amor. Um grande amor não desaparece por completo.

Já cuidei de várias pessoas com Alzheimer, entre elas, houve um caso único que resolvi partilhar:

Era um casal… casados há mais de 50 anos…repito… 50 anos.

Ela precisava viajar por breves dias. Uma senhora bonita, elegante. Boa postura. Mas nesse dia, da viagem, tinha uma certa dificuldade em disfarçar o medo, a ansiedade, a preocupação. E se acontecesse algo ao marido, enquanto ela estivesse fora? E se a viagem fosse uma péssima ideia? Afinal de contas, ela estaria a abandonar o marido por um curto período de tempo. Ela era a mulher dele. Era o dever dela, cuidar da casa e dele. Mas, o cuidador, seja a filha, a mulher, outro familiar, também merecem um tempo só deles. Não seria egoísmo. Era auto cuidado.

No dia da viagem, acompanhei o senhor até á sala. Virado para a janela, onde tinha uma bela vista sobre o Funchal. A minha intenção, seria, ele estar distraído, enquanto a senhora ia buscar as malas.

Lentamente, a senhora levou as suas malas até à porta. Bem vestida, cabelo arranjado. Só o olhar ansioso a denunciava. “Vou andando para o aeroporto. Eu nem me despeço para ele não ficar ansioso à minha espera”

Ela abriu a porta, olhou brevemente para mim e  despediu-se, mesmo sem palavras. Não podíamos nos despedir. Ele iria perceber.

A porta fechou-se. Olhei para o senhor, ele estava a olhar para  vazio, em direção à janela. Como se nem estivesse se apercebido de nada. Por uns instantes, senti um alívio. A meu ver, ele nem teria ouvido a porta a fechar.

Ficou combinado eu fazer companhia e cuidar dele. Dia e noite, enquanto a senhora estava fora. Depois eu retornava ao meu horário normal. Mas sabem que mais? Não me importei. Tínhamos criado um laço, inexplicável, entre cuidadora e utente.

A primeira noite, ele sentou-se na sua cama, com um olhar vazio, mas confuso. Como se ele já começasse a sentir que faltaria alguém. A casa estava demasiado… vazia.

A meio da noite, ele acordou. Levantou-se, e começou a andar pela casa. Como se estivesse à procura de algo, ou de alguém. “Eu perdi alguma coisa mas não sei o que é”- disse ele, enquanto caminhava, perdido, pela casa. Eu deduzi logo, ele sentia a falta da mulher, mas o cérebro confuso, não estava a associar as coisas. Ele apenas sabia que faltava algo. Fiz um lanche leve da madrugada, algo para acalmar aquele coração, e para preencher, de certa forma, o vazio que ele sentia. Aos poucos, consegui convence-lo a voltar a dormir. Dia seguinte, notava-o cada vez mais inquieto. Ele sentia. Não sabia o quê, mas ele sentia algo e não era positivo.

De repente, surgiu-me uma ideia. Ele tinha de acalmar o coração e passar o tempo. Sugeri que ele escrevesse uma carta de amor à mulher. Disse que ela tinha saído, mas que em breve iria chegar a casa. E ela ficaria feliz em ver aquela carta.

Dei-lhe uma folha, e uma caneta. E sem hesitar, ele começou a escrever. Escrever sem parar. Eu olhava o que ele escrevia. Eram rascunhos, misturados com palavras sem nexo. Mas, para ele, aquilo fazia sentido. O amor e a saudade era tão grande, que ele escrevia tanto e tanto… virou a folha e escreveu mais.

Ele tinha tanto para lhe dizer. Nunca saberei o que ele estava a pensar enquanto escrevia, pois não dava para entender. Mas para ele, aquilo era real. O amor era real. E era só isso que importava.

Dia seguinte, consegui comprar uma rosa vermelha. Com um único propósito: ele entregar aquela rosa, á sua mulher, quando ela chegasse de viagem. Deixei-me envolver, por aquela carta de amor. Afinal, hoje em dia, quem faz isso?

A mulher chegaria de viagem, á noite. E uns minutos antes de ela chegar, como se tratasse de um ensaio para uma grande peça de teatro, eu disse a ele, para se levantar, quando a mulher chegasse, e dar a rosa e a carta. Ele achou boa ideia, na hora.

A porta abriu-se. Ele ouviu. Automaticamente, levantou-se da cama onde estava sentado. Ele sabia que teria de se levantar. Algo importante estava a acontecer. Ele já não se lembrava do quê, mas sabia que a resposta ao seu vazio, tinha chegado. Começou a andar em direção á porta, e eu coloquei a rosa na mão dele, juntamente com a carta de amor. Ele olhou a rosa, já sabia o que deveria de fazer.

Caminhando lentamente até á sala, olhou uma cara bem familiar. Ela sorria para ele, com olhar de saudade e alívio. Alívio de finalmente o ver, e que afinal, correu tudo bem na sua ausência.

Ele enquanto andava em direção ao amor da sua vida, a mão que tinha a rosa, estendeu-se e ele entregou-lhe a rosa e a carta. A mulher, não resistiu ao ato de afeto, e se emocionou. Não apenas pelo que recebeu, mas por ele ter ido ao encontro dela.

Afinal, ele percebeu a sua ausência. Afinal, ele tinha saudades. Afinal, escreveu tanto, embora a carta era impercetível, tinha muito sentimento envolvido. E isso bastou.

Mas este grande amor não acabava ali. Ele tinha um coração enorme. Amava as pessoas, criava amizades com facilidade. Mas, no coração também cabia o amor imenso pelos filhos. Era um homem de família.

Eles foram vendo aos poucos…

Não de um dia para o outro, mas em pequenos pedaços que se perdiam no tempo.

O homem que ensinou valores, que organizava tudo, que sabia todas as respostas, que era força, segurança, direção.

Agora, era ele quem precisava deles. E eu notava, a tristeza no olhar de cada um deles, mas depois a alegria, quando o pai, por breves momentos colaborava com eles. Eles ficavam com um brilho especial nos olhos, como se esses breves momentos seriam uma grande conquista.

Mas eles ficaram firmes. Presentes, amorosos e atenciosos. Mesmo quando ele parecia não se lembrar deles, mesmo quando ele apenas olhava o vazio. Eles traziam com eles, os valores que ele os ensinou, juntamente com a mãe. Os valores de uma família unida e pronta para apoiar, acontecesse o que acontecesse.

Seguravam-lhe a mão. Na última fase do Alzheimer, era assim que ele comunicava. Com o toque das mãos. E os filhos, enquanto seguravam as mãos, colocavam uma música familiar. Eu acredito, que nesses momentos, o amor falava mais alto, e ele as reconhecia. Porque o Alzheimer pode apagar lembranças… mas não consegue apagar o que foi vivido com verdade. E ali, havia uma força maior do que qualquer esquecimento. Eles não estavam apenas a perder um pai… estavam a honrar tudo aquilo que ele foi.

E um detalhe curioso, que na altura eu não prestava tanto atenção, ele muitas vezes repetia o número 3 ou 4. “Somos 3 ou 4. São 3”

Agora, pensando bem, ele estava a fazer um grande esforço, para não esquecer o número de filhos que teve. Nem da mulher. As quatro pessoas mais importantes da vida dele.

Muitas vezes, ele perguntava-me onde estava a mulher dele. Mesmo em estado mais avançado da doença, ele mencionava ela.

Na fase avançada desta doença, a memória consciente praticamente desaparece, incluindo a capacidade de reconhecer o cônjuge como “marido” ou “esposa”.

Mas, aqui está o ponto mais importante, a memória emocional pode permanecer.

Na fase final, o cérebro não acessa a memórias completas, ele acessa a “pedaços” carregados de emoção.

O cérebro mantém estruturas simples, como números, repetições, padrões. E os números 3 ou 4, poderia estar bem relacionado com os filhos e a mulher. Ele teria uma sensação interna de “família”. E os números eram uma forma reduzida de expressar isso.

O cérebro ia falhando… mas o afeto sobreviveu até ao fim.

 

 

Introdução

Na NeuroCuidados, acreditamos que cuidar da mente é cuidar da vida.

Neste espaço nasce da necessidade de informar, apoiar e humanizar o olhar sobre o cérebro, o envelhecimento e a saúde mental. Todos nós, em algum momento da vida, seremos tocados, direta ou indiretamente, por alterações cognitivas ou emocionais. E quando isso acontece, a informação clara e o cuidado fazem toda a diferença.

Aqui, queremos ser esse ponto de apoio.

O que são as demências?

As demências  são um conjunto de condições que afetam o funcionamento do cérebro, interferindo na memória, no raciocínio, na linguagem e no comportamento. Não fazem parte do envelhecimento normal, embora sejam mais comuns em idades avançadas.

Doenças como Alzheimer, demência vascular ou outras formas de declínio cognitivo trazem desafios não só para quem vive a condição, mas também para quem cuida.

Compreender estas alterações é o primeiro passo para cuidar com mais empatia, paciência e eficácia.

O que são os transtornos mentais?

Os transtornos mentais envolvem alterações no pensamento, humor ou comportamento, que impactam a forma como a pessoa vive, sente e se relaciona.

Depressão, ansiedade, esquizofrenia, bipolaridade, entre outros, não são fraquezas, são condições reais que precisam de compreensão, acompanhamento e, muitas vezes, tratamento.

Falar sobre saúde mental é quebrar preconceitos e abrir espaço para o cuidado.

O que vai encontrar aqui

Na Neurocuidados, vamos abordar de forma clara e acessível:

  • O funcionamento do cérebro
  • Diferentes tipos de demência e transtornos mentais
  • Estratégias práticas de cuidado no dia a dia
  • Dicas para cuidadores, familiares e portadores das doenças
  • Curiosidades sobre comportamento e mente
  • Tópicos sensíveis sobre a morte e luto
  • Reflexões sobre empatia, envelhecimento e dignidade
  • Acompanhamento e ajuda online personalizada para cuidadores e familiares

Este é um espaço para aprender, mas também para sentir. Porque cuidar não é apenas técnica, é preciso presença, respeito e humanidade.