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Alzheimer

Confabulação nas demências. A distinção entre mentira voluntária e involuntária

09/08/2026Por Neuro Cuidados4 min de leitura0 comentários

Você acabou de dar o almoço ao seu familiar com demência. Você lava a loiça, senta-o no sofá, e pergunta: “Então, gostou do almoço?” E, o seu familiar nem hesita. Pergunta logo: “Almoço? Que almoço? Eu não comi nada!”

Rapidamente, uma simples pergunta de rotina, torna-se num ambiente de guerra e um numa concorrência, de quem afinal tem razão.

E logo, o doente é rotulado como mentiroso e manhoso. Talvez porque quer brigas, confusões ou que queria repetir mais um prato de comer. Mas até que ponto isto será verdade? Será que uma pessoa com demência tem capacidade para mentir e para provocar brigas?

Existe uma palavra um bocado “cara”: Confabulação. Mas afinal o que significa?

A pessoa com Alzheimer ou outro tipo de demência, pode dizer algo falso, mas isso não significa necessariamente que esteja a tentar enganar alguém.

A confabulação acontece quando a pessoa apresenta uma informação que não corresponde á realidade, sem intenção consciente de mentir.

O cérebro tem dificuldade em recordar corretamente, organizar acontecimentos no tempo e distinguir uma memória verdadeira de uma informação que foi construída ou preenchida.

O exemplo do cuidador perguntar á pessoa em questão se já almoçou e ela responder que não, que afinal já tinha almoçado, pode parecer uma mentira deliberada. Porém, dependendo do estado cognitivo da pessoa, ela pode acreditar genuinamente que nem almoçou.

Não está necessariamente a pensar: “Vou dizer isto para enganar o meu filho”. O cérebro simplesmente produziu uma resposta que, para ela naquele momento, parece verdadeira.

Uma das situações que mais confunde e magoa as famílias de uma pessoa com demência é ouvir coisas que não correspondem à realidade.

“Ela mente muito”

“Diz que fez uma coisa que nunca fez”

“Diz que não lhe dei  comer”

“Está a fazer isto de propósito”

Antes de interpretar estes comportamentos como mentira, é importante compreender a confabulação.

A confabulação ocorre quando a pessoa apresenta uma informação incorreta sem ter, necessariamente, intenção de enganar. Nas demências, as alterações da memória, da orientação temporal e da capacidade de organizar e verificar as próprias recordações podem fazer com que o cérebro preencha as lacunas com informações incorretas.

A pessoa pode afirmar que já jantou quando nem comeu. Pode dizer que falou com alguém quando essa conversa nunca aconteceu. Pode contar um acontecimento de há muitos anos como se tivesse acontecido ontem.

Par quem está de fora, parece uma mentira. Mas, existe uma diferença fundamental: na mentira existe intenção de enganar. Na confabulação, a pessoa pode acreditar naquilo que está a dizer. E como se o cérebro tivesse perdido algumas peças de um puzzle e tentasse completar a imagem com aquilo que consegue encontrar. O resultado pode não corresponder à realidade, mas para a pessoa pode parecer perfeitamente coerente naquele momento.

Então, uma pessoa com demência consegue mentir?

A resposta não é simplesmente “não”.

Uma pessoa com demência pode continuar a ter capacidade para mentir, sobretudo nas fases iniciais da doença porque a intenção, a personalidade e algumas capacidades sociais podem permanecer preservadas durante algum tempo.

Por exemplo, pode esconder deliberadamente um erro, negar algo para evitar alguma consequência ou tentar convencer alguém de alguma coisa.

Mas, à medida que a doença progride, torna-se cada vez mais difícil distinguir uma mentira intencional de uma afirmação falsa provocada pela própria doença.

Compreender a confabulação não significa aceitar tudo como verdadeiro. Significa perceber de onde pode estar a vir aquela informação.

Se a pessoa realmente acredita no que está a dizer, confrontá-la repetidamente pode não resolver o problema. Pelo contrário, pode provocar ansiedade, frustração, discussão e até desconfiança em relação ao cuidador.

Em vez de dizer: “Isso é mentira Nunca aconteceu!”

Pode ser mais eficaz responder: “Eu percebo que se lembra dessa forma. Vamos confirmar juntos.”

Ou então simplesmente redirecionar a conversa quando não existe risco ou consequência importante.